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O sábado livre e a vontade de ajudar
Sábado de manhã, agenda vazia pela primeira vez em semanas. Você vê no celular uma campanha de agasalhos, lembra daquele vizinho que mora sozinho e sente uma vontade sincera de fazer alguma coisa. Só que, logo em seguida, vêm as dúvidas: por onde começar? Eu tenho tempo? Será que vou atrapalhar?
Muita gente boa para nesse ponto e deixa a vontade de ajudar para outra hora. O Espiritismo tem uma resposta simples para isso: caridade é prática, e se aprende praticando, no tamanho que cabe na vida de cada um.
O que é caridade, segundo Jesus e Kardec
Quando Kardec perguntou aos Espíritos qual é o verdadeiro sentido da palavra caridade, como Jesus a entendia, a resposta veio em uma frase:
“Benevolência para com todos, indulgência para as imperfeições dos outros, perdão das ofensas.”
— Allan Kardec, O Livro dos Espíritos, questão 886
Repare que não há dinheiro nem tarefa nessa definição. Caridade começa na forma de olhar e de tratar as pessoas. No comentário que acompanha a resposta, Kardec acrescenta que a caridade, segundo Jesus, não se restringe à esmola e abrange todas as relações em que nos achamos com os nossos semelhantes. O voluntariado é um jeito organizado de levar essa atitude para fora de casa.
Ir ao encontro, sem esperar que peçam
Na questão 888, Kardec pergunta o que se deve pensar da esmola, e a resposta vai além do que se espera. Os Espíritos dizem que não é a esmola que merece reprovação, mas a maneira como habitualmente é dada, e descrevem o que faz quem entende a caridade como Jesus:
“O homem de bem, que compreende a caridade de acordo com Jesus, vai ao encontro do desgraçado, sem esperar que este lhe estenda a mão.”
— Allan Kardec, O Livro dos Espíritos, questão 888
A mesma resposta acrescenta um detalhe que vale para qualquer voluntário: “Duplo valor tem um serviço prestado com delicadeza.” Não basta ajudar, importa como se ajuda. Quem recebe um prato de comida com respeito sente-se acolhido, e quem recebe a mesma comida com pressa ou pena sente-se pequeno.
No limite das suas forças
Outra frase ajuda quem tem receio de se comprometer demais. Na questão 642, perguntam se basta ao homem não praticar o mal. A resposta:
“Não; cumpre-lhe fazer o bem no limite de suas forças, porquanto responderá por todo mal que haja resultado de não haver praticado o bem.”
— Allan Kardec, O Livro dos Espíritos, questão 642
Note a expressão “no limite de suas forças”. Ninguém precisa abandonar o trabalho nem esgotar a família para ser voluntário. Duas horas por mês, feitas com constância, valem mais do que um mês inteiro de entusiasmo seguido de desistência. E cuidar da própria saúde e da própria casa também faz parte do dever.
Como começar, na prática
- Olhe primeiro para perto. Um vizinho idoso, uma creche do bairro, uma escola ou o próprio centro espírita que você frequenta costumam precisar de mãos.
- Procure organizações sérias. Pergunte como o trabalho funciona, quem coordena e como as doações são usadas. Gente séria responde sem ficar incomodada.
- Combine uma frequência que você consiga manter. Pode ser um sábado por mês. Constância pesa mais do que quantidade.
- Respeite quem recebe. Trate cada pessoa pelo nome, ouça antes de agir e evite expor rostos e histórias nas redes sociais sem permissão.
- Anote o que aprendeu. Quem serve costuma voltar para casa com perguntas novas sobre paciência, gratidão e o que realmente importa.
E se eu não tiver tempo nenhum?
Nem toda caridade pede agenda. Dá para ajudar com o que se sabe fazer: ensinar uma receita, ajudar alguém a preencher um formulário, levar um idoso à consulta, dar atenção a quem está só. A indulgência e o perdão, citados na questão 886, também são formas de caridade, e acontecem dentro de casa, na fila do mercado e no trânsito.
Um passo para esta semana
Escolha uma única ação e marque no calendário: ligar para um centro espírita ou para uma instituição do bairro e perguntar do que precisam, ou visitar aquela pessoa que anda sozinha. Depois, faça uma prece curta de agradecimento por ter podido servir. O primeiro passo costuma ser o mais difícil, e também o que mais ensina.
