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Você abre a mochila do seu filho no fim da tarde e encontra um bilhete da escola. A professora avisa que na sexta-feira haverá comemoração do Dia das Bruxas e pede que as crianças venham fantasiadas. Na mesma hora, bate aquela incerteza comum a tantos lares espíritas: será que tem problema deixar a criança ir vestida de fantasminha ou de bruxinha? Ou será que isso contraria o que aprendemos na casa espírita?
Essa dúvida é muito natural e aparece todos os anos nos grupos de estudo. A gente quer educar bem, quer proteger a energia do lar e teme abrir portas que não devia. Por outro lado, ninguém quer isolar os pequenos do convívio escolar nem transformar uma data divertida em um bicho de sete cabeças. Vamos olhar para esse assunto com calma e bom senso, como Allan Kardec sempre nos ensinou a fazer.
A fantasia infantil e o olhar do bom senso
Para uma criança de seis ou sete anos, colocar uma capa preta ou um chapéu pontudo não tem nada a ver com invocar forças ocultas. Para ela, é exatamente a mesma coisa que se vestir de super-herói, de dinossauro ou de princesa. Trata-se de pura imaginação lúdica, uma oportunidade de correr pela calçada, pedir doces aos vizinhos e brincar com os amigos da escola.
O Espiritismo nos ensina que o que realmente importa é o pensamento e a intenção do coração. O tecido de uma roupa ou uma abóbora iluminada de plástico não têm poder mágico em si mesmos. A matéria é inerte; ela só ganha significado a partir do que nós projetamos nela.
Se o ambiente é de alegria pura e inocência infantil, não há motivo para pânico. Proibir a criança de forma rígida, criando medos que ela não tinha, costuma ser mais prejudicial do que deixá-la participar da recreação. A infância precisa de leveza, e a nossa postura deve ser de acolhimento e equilíbrio.
O limite entre a brincadeira e o respeito ao mundo espiritual
A situação muda de figura quando saímos da inocência dos pequenos e olhamos para os mais velhos. Pense num grupo de adolescentes brasileiros reunidos na sala de casa durante o mês de outubro. No embalo dos filmes de terror e do clima de Dia das Bruxas, alguém sugere apagar a luz e fazer a famosa “brincadeira do copo” ou a do compasso para falar com quem já partiu.
Aí sim encontramos um ponto em que a Doutrina Espírita nos pede muita atenção. Uma coisa é vestir uma fantasia para comer brigadeiro na escola; outra muito diferente é tentar estabelecer contato com o plano espiritual como se isso fosse entretenimento de fim de semana. É nesse ponto exato que o pensamento de Kardec se faz necessário para orientar a nossa conduta.
Em O Livro dos Médiuns, na Segunda Parte da obra, quando Allan Kardec estuda as evocações e a natureza das comunicações, ele repete com clareza que o diálogo com os Espíritos exige seriedade, respeito e objetivo moral elevado. A espiritualidade não é passatempo para noites de tédio nem espetáculo para satisfazer a curiosidade alheia.
O que acontece quando tratamos a mediunidade como jogo
Kardec explica que o mundo invisível nos cerca constantemente e que os Espíritos se aproximam de nós por afinidade de pensamentos e sentimentos. Quando alguém tenta evocar almas sem nenhum propósito sério, apenas para passar o tempo ou levar sustos, quais Espíritos você imagina que vão responder a esse chamado? Certamente não serão mentores elevados nem espíritos benevolentes e sábios.
Quem atende a convites fúteis são justamente os Espíritos levianos, zombeteiros e desocupados. Eles acham graça da ingenuidade dos participantes, movimentam objetos, inventam histórias assustadoras e alimentam o medo do grupo. Não se trata de demônios eternos ou de forças invencíveis, mas simplesmente de irmãos desencarnados que ainda mantêm o gosto pela zombaria e pela perturbação.
O perigo dessas brincadeiras não está em maldições fictícias, mas nas impressões emocionais que ficam depois. Jovens impressionáveis podem sair dessas experiências com crises de ansiedade, noites mal dormidas e uma sintonia mental pesada que demora a se desfazer. O respeito às leis espirituais nos poupa de desequilíbrios desnecessários.
Como orientar a família sem recorrer ao medo
Se você tem filhos pequenos ou adolescentes em casa, a melhor ferramenta nunca é a proibição cega, mas o diálogo franco. O Espiritismo é uma doutrina que esclarece pela razão, sem apelar para ameaças de castigo divino. Podemos sentar no sofá e conversar com calma, explicando a diferença entre a diversão saudável e a imprudência.
Com os pequenos, você pode tranquilamente ajudar a escolher uma fantasia divertida, evitando aquelas que estimulem o terror exagerado ou a crueldade, e deixar que aproveitem o momento com os colegas. Com os adolescentes, vale uma conversa honesta sobre a seriedade da vida após a morte, lembrando que os que já partiram continuam vivos, merecem nossa consideração e não devem ser tratados como brinquedos de tabuleiro.
Caso a sua família prefira não participar de festividades com essa temática, tudo bem também. Essa é uma escolha íntima de cada lar. O fundamental é que essa decisão seja tomada com paz de espírito, e não por medo de que o “mal” vá entrar pela porta só porque é 31 de outubro.
Construindo memórias de afeto e paz no lar
Datas como essa podem se transformar em uma oportunidade para reunir as pessoas queridas em torno do que realmente constrói. Se você não gosta do apelo comercial do Halloween, que tal usar essa noite para uma atividade diferente em casa?
- Fazer uma noite de histórias em família, conversando sobre a vida dos avós e bisavós, valorizando a memória de quem já partiu com carinho e gratidão.
- Preparar um lanche especial na cozinha com as crianças, aproveitando o tempo juntos para conversar sobre sentimentos e amizade.
- Realizar o Evangelho no Lar com calma, pedindo a proteção dos benfeitores espirituais para a casa e para todos os lares da nossa vizinhança.
A pureza ou a sombra não estão nas datas do calendário, mas naquilo que escolhemos cultivar na mente e no coração. Allan Kardec nos libertou do pavor do desconhecido ao nos mostrar que o mundo espiritual é regido por leis naturais e pela justiça divina.
Se a dúvida sobre o que fazer ainda estiver no seu peito hoje, faça algo muito simples: respire fundo, faça uma prece sincera antes de dormir e converse com seus filhos com amor. A prece serena e o diálogo aberto dentro de casa são sempre a nossa melhor bússola.
