Imagem: nathan-osman / Pixabay
Termina a palestra pública de uma noite comum de terça-feira. Dona Maria ouve o barulho das cadeiras de plástico sendo arrastadas, ajeita a bolsa no colo e vê um grupo se levantando em direção a uma porta lateral. Alguém avisa no microfone que vai começar o atendimento fraterno e os passes. Dona Maria não sabe bem o que vai acontecer ali dentro, mas levanta e vai junto. Afinal, a semana foi puxada no trabalho, a cabeça está cheia de preocupações com as contas de casa e o corpo dói de cansaço. Ela pensa que talvez aquela imposição de mãos possa tirar todas as aflições com a rapidez de um toque.
Essa cena se repete em centenas de centros espíritas pelo Brasil. Quem nunca entrou numa fila dessas carregando o peso de dias difíceis, como quem pega dois ônibus lotados depois de um dia estafante? A gente busca alívio, e isso é absolutamente natural. No entanto, quando não entendemos o mecanismo dessa ajuda, corremos o risco de transformar uma prática simples em um tipo de magia. Se você está conhecendo a casa espírita agora, vale dar uma olhada em nosso texto sobre a Primeira Visita a um Centro Espírita, onde falamos da recepção geral. Vamos ver, com calma e clareza, o que a Doutrina Espírita realmente nos ensina sobre o passe.
O que são os fluidos e como funciona essa transmissão
Para entender o passe, precisamos falar de fluidos. Allan Kardec dedicou páginas fundamentais a esse assunto na obra A Gênese, especialmente no capítulo XIV, tratando da natureza dos fluidos espirituais e dos elementos que compõem o universo invisível. De forma bem acessível, podemos pensar nos fluidos como a matéria sutil que nos envolve, uma atmosfera invisível que absorve e reflete a qualidade dos nossos sentimentos, pensamentos e desejos.
O passe nada mais é do que uma transfusão de energias psíquicas e espirituais. O passista, que é a pessoa que aplica o passe, doa parte de suas próprias forças vitais, o chamado magnetismo humano. Ao mesmo tempo, ele atua como um canal intermediário para os fluidos mais puros trazidos pelos benfeitores espirituais. Essa junção cria uma carga benéfica direcionada à pessoa que está precisando de rearmonização íntima.
Tudo isso se move pelo pensamento e pela vontade. Não há necessidade de fórmulas mágicas, encenações, estalos de dedos ou respirações ruidosas. Em O Livro dos Médiuns, Kardec explica que a ação magnética é impulsionada pela pureza do sentimento e pela vontade firme de fazer o bem. Quando o passista ora em silêncio e deseja sinceramente aliviar o sofrimento do irmão, essa força mental direciona os fluidos. É uma doação de coração para coração, amparada pelo plano espiritual.
O que o passe não faz: limites, corpo físico e medicina
Tão importante quanto saber o que o passe faz é compreender os seus limites. O passe não é milagre e não revoga as leis da natureza. Uma das dúvidas mais dolorosas surge quando alguém enfrenta uma doença grave na família. Imagine a situação de uma mãe que passa horas na fila de um posto de saúde com o filho febril e depois corre para o centro espírita esperando que o passe cure a infecção instantaneamente. O passe conforta e fortalece, mas a criança ainda precisa do antibiótico receitado pelo médico.
O passe espírita não substitui a consulta médica, não dispensa os exames clínicos e nunca autoriza ninguém a abandonar remédios ou tratamentos psicológicos. A Doutrina Espírita caminha ao lado da ciência. O próprio Kardec nos ensinou que a matéria responde às leis materiais. Se há uma lesão física ou um desajuste químico no cérebro, a medicina terrena é o recurso abençoado que Deus nos concede para tratar o corpo físico.
Além disso, o passe não anula a nossa responsabilidade pessoal perante as próprias escolhas. Não adianta tomar o passe na casa espírita e, logo em seguida, voltar para casa alimentando rancores, brigando no trânsito ou mantendo hábitos que desgastam a saúde física e mental. O passe ajuda a limpar a poeira pesada que acumulamos, mas a manutenção da casa limpa cabe unicamente a nós. Não há promessas de curas fáceis ou de soluções instantâneas para problemas materiais.
A atitude íntima de quem recebe: a importância da receptividade
Você já tentou encher um copo que já está virado de cabeça para baixo? A água simplesmente escorre pelas laterais. Algo muito semelhante acontece durante o passe. A eficácia desse intercâmbio não depende apenas de quem doa, mas também da postura de quem recebe. Se a pessoa entra na cabine de passe com o coração fechado, desconfiado ou exigindo um sinal visível, os fluidos encontram uma barreira natural criada pela sua própria mente.
A postura recomendada na fila e no momento do atendimento é de respeito e quietude:
- Mantenha o silêncio exterior e tente diminuir o turbilhão dos pensamentos cotidianos.
- Faça uma oração íntima, conversando com Deus com suas próprias palavras e pedindo equilíbrio.
- Respire com calma, sem ansiedade quanto ao tempo de duração ou aos gestos do passista.
- Abra o coração para aceitar a ajuda espiritual que for possível receber naquele dia.
Não há necessidade de cruzar ou descruzar pernas e braços por superstição. O que realmente importa é a disposição da alma. A prece silenciosa funciona como uma chave que abre a nossa intimidade para absorver os recursos que os amigos espirituais trazem. Quando nos colocamos em atitude humilde de quem pede socorro, as energias benéficas conseguem penetrar e renovar nossas forças mais profundas.
Como viver melhor os benefícios do passe no cotidiano
O alívio que sentimos depois de um passe é real e perceptível. Muitas pessoas relatam uma sensação imediata de leveza, como se tirassem uma mochila de pedras das costas. Esse bem-estar acontece porque as vibrações pesadas foram dissipadas e as energias vitais foram reabastecidas. Porém, a grande questão é: quanto tempo dura esse estado de tranquilidade?
A resposta depende de como conduzimos a nossa rotina nos dias seguintes. Se saímos do centro e permitimos que as mágoas do ambiente familiar ou as tensões do escritório tomem conta de novo, os fluidos salutares logo se dissipam. O passe nos dá o fôlego necessário para recomeçar, mas a caminhada diária é nossa. Ele nos oferece um crédito de paz para que tenhamos paciência de lidar com as dificuldades normais da vida humana.
Da próxima vez em que você for a uma casa espírita e se sentar na fila do passe, experimente fechar os olhos por alguns instantes. Esqueça o celular, não repare nas pessoas ao lado e não cobre resultados espetaculares. Faça uma prece simples, agradecendo pela vida e pedindo apenas forças para suportar suas provas com serenidade. Você verá que o passe começa muito antes da imposição das mãos: ele se inicia no exato momento em que o seu coração decide acolher a paz.
Leia também
- Médiuns videntes: ver um Espírito de passagem significa
- A força da gratidão segundo o Espiritismo e a mudança
- Obsessão Espiritual Segundo Kardec
Imagem: nathan-osman / Pixabay
