Por que algumas crianças partem tão cedo? Neste estudo acolhedor de O Livro dos Espíritos, questões 197 a 199 e 381 a 385, vemos quem é o Espírito que habita uma criança, o que pode significar uma vida curta, o que acontece depois e como lidar com a saudade. Se você está em luto, procure apoio: o CVV atende gratuitamente pelo 188.
Prefere ler? O estudo completo está aqui embaixo, com as questões de O Livro dos Espíritos para você conferir na obra.
Existe uma dor que quase não tem nome. É a dor de quem se despede de uma criança. Um bebê, um filho pequeno, um sobrinho, um neto. E, junto com a dor, vem a pergunta que muitas famílias fazem em silêncio: por que tão cedo? Se você está passando por isso agora, este vídeo foi feito com muito cuidado, pensando em você.
Antes de começar, uma palavra importante. Se a dor estiver pesada demais, você não precisa passar por isso sozinho. O CVV, Centro de Valorização da Vida, escuta de graça, a qualquer hora, pelo telefone cento e oitenta e oito. Grupos de apoio ao luto e o acompanhamento de um profissional também ajudam muito. O consolo espiritual caminha junto com esse cuidado.
Neste estudo, vamos ver o que O Livro dos Espíritos ensina sobre quatro perguntas. Quem é o Espírito que habita uma criança. O que pode significar uma vida curta. O que acontece depois. E como seguir, para quem fica. Sem pressa, e com todo o respeito pela sua história.
Quem é aquela criança
“Não sabeis o que elas são, nem o que foram, nem o que serão.”
O Livro dos Espíritos, questão 385
Começamos por uma frase da questão 385, que muda a forma de olhar para uma criança. Não conheceis o que a inocência das crianças oculta. Não sabeis o que elas são, nem o que foram, nem o que serão. Para o Espiritismo, aquele corpinho é a morada de um Espírito que já existia antes, com uma longa história.
E aqui vem uma resposta que costuma tocar muito os pais. Na questão 197, Kardec pergunta se o Espírito de uma criança que morreu muito pequena pode ser tão adiantado quanto o de um adulto.
E a resposta é: algumas vezes, muito mais. Pode acontecer que aquele Espírito já tenha vivido muito mais e adquirido mais experiência. Kardec ainda pergunta se ele pode ser mais adiantado que o próprio pai. E os Espíritos respondem: isso é muito frequente. Aquela criança que passou tão pouco tempo com vocês pode ter sido uma alma grande, num corpo pequeno.
Kardec também pergunta se uma criança, por não ter tido tempo de fazer o mal, já seria automaticamente um Espírito superior. E a questão 198 responde com equilíbrio: se não fez o mal, também não fez o bem naquela vida curta. Se for um Espírito puro, não é por ter animado apenas uma criança, mas porque já tinha progredido até a pureza antes. O valor daquele Espírito vem do caminho que ele já percorreu.
A mesma questão 385 explica por que as crianças despertam tanto carinho, até em quem não as conhece. Deus lhes dá a aparência da inocência, dizem os Espíritos, também e sobretudo por causa dos pais, porque a fragilidade delas precisa desse amor. E chamam o amor de uma mãe pelos filhos de o maior amor que um ser pode dedicar a outro. Esse amor não foi em vão. Ele continua.
Por que tão cedo
Agora, a pergunta mais difícil. Por que, tantas vezes, a vida se interrompe na infância? Kardec perguntou exatamente isso, na questão 199.
“A curta duração da vida da criança pode representar, para o Espírito que a animava, o complemento de existência precedentemente interrompida antes do momento em que deveria terminar, e sua morte muitas vezes constitui provação ou expiação para os pais.”
O Livro dos Espíritos, questão 199
A primeira parte da resposta é esta. A vida curta da criança pode representar, para o Espírito que a animava, o complemento de uma existência anterior, que foi interrompida antes do momento em que deveria terminar. Ou seja, às vezes aquele Espírito só precisava de pouco tempo aqui para completar um ciclo. Ele não deixou nada pela metade. Ele concluiu.
A mesma resposta diz que essa partida também pode ser uma prova para os pais. E aqui é preciso muito cuidado com as palavras. Prova não é castigo. Não é culpa. Ninguém deve olhar para uma família em luto e procurar explicações para a dor dela. Uma prova é uma travessia difícil, que pede amor, apoio e tempo. E ninguém deveria atravessá-la sozinho.
Kardec acrescenta um raciocínio sobre justiça. Se o homem tivesse uma única existência, e a sorte de cada um ficasse decidida para sempre ao morrer, qual seria o mérito daqueles que partem na infância? Seria justo uns ganharem a felicidade eterna sem esforço, e outros passarem por condições tão duras? Com a reencarnação, escreve ele, a igualdade é real para todos. Ninguém é esquecido e ninguém é favorecido.
O que acontece depois
E o que acontece com o Espírito de uma criança que parte tão pequenina? A resposta da questão 199 é curta: recomeça outra existência. A vida dele não acabou. Ela segue, com novas oportunidades, no tempo certo para ele.
A questão 381 traz outro consolo. Quando a criança morre, o Espírito recupera o seu vigor, porque está livre do corpo. A lucidez completa volta quando se desfazem todos os laços com ele. Aquele que vocês carregaram no colo, lá do outro lado, não é mais um bebê frágil. É um Espírito inteiro, que se lembra de quem era, e do amor que recebeu.
“Muitas vezes aqueles seus conhecidos o vêm receber à entrada do mundo dos Espíritos.”
O Livro dos Espíritos, questão 160
E ele não chega sozinho. A questão 160 diz que, muitas vezes, aqueles que amamos e que partiram antes vêm nos receber na entrada do mundo espiritual, e nos ajudam a nos desligar da matéria. Avós, bisavós, amigos da família. Ninguém que foi amado chega sem colo do outro lado.
Muitos pais se perguntam se o filho sofreu, preso num corpo tão pequeno e frágil. A questão 382 responde que o Espírito não sofre pela limitação do corpo na infância. Esse estado faz parte da natureza, e é, dizem os Espíritos, um período de repouso do Espírito.
E há uma resposta pequena e delicada nesse mesmo capítulo, que mostra o cuidado com que a vida é organizada. Kardec pergunta por que o choro é a primeira manifestação de uma criança ao nascer.
“Para estimular o interesse da genitora e provocar os cuidados de que necessite. […] Admirai, pois, em tudo a sabedoria da Providência.”
O Livro dos Espíritos, questão 384
E a resposta da questão 384 é cheia de ternura. O choro existe para despertar o interesse da mãe e provocar os cuidados de que o bebê precisa. Se ele só manifestasse alegria, antes de saber falar, talvez ninguém se preocupasse tanto com ele. Admirai, pois, em tudo, a sabedoria da Providência. Até o primeiro choro é um pedido de amor.
Para quem fica
“O Espírito é sensível à lembrança e às saudades dos que lhe eram caros na Terra; mas, uma dor incessante e desarrazoada o toca penosamente […].”
O Livro dos Espíritos, questão 936
E para quem fica? A questão 934 reconhece que a perda de quem amamos é uma dor legítima. E a novecentos e trinta e seis ensina que quem partiu é sensível à nossa lembrança e às nossas saudades. Mas uma dor incessante, sem medida, o toca penosamente. Não porque devemos esquecer. Mas porque ele deseja nos ver em paz.
A questão 934 traz ainda uma consolação. Ela reconhece que a perda de quem amamos é uma causa legítima de dor, que atinge o rico e o pobre do mesmo jeito. Mas lembra que temos um consolo: podemos nos comunicar com quem partiu pelos meios que estão ao nosso alcance. Para a maioria de nós, esse meio é o pensamento carinhoso e a prece. Cada vez que você pensa nele com amor, ele recebe.
Algumas sugestões, com todo o respeito pelo tempo de cada um. Permita-se chorar, sem culpa. Faça uma prece de carinho por ele, como quem manda uma carta. Aceite ajuda, da família, dos amigos, de grupos de apoio ao luto e de profissionais. E, quando for possível, transforme a saudade em amor por outras pessoas. Esse amor também chega até ele.
Para guardar
Para guardar no coração. Toda criança é um Espírito com uma longa história. Uma vida curta pode ser um ciclo que se completou. Ele é recebido com amor do outro lado. E o amor continua, até o dia do reencontro.
Talvez ele não tenha ido embora cedo demais. Talvez tenha ficado exatamente o tempo de ensinar a amar. E esse ensino, ninguém tira de vocês.
Fontes
- O Livro dos Espíritos, Allan Kardec, questões 160, 197 a 199, 381 a 385, 934 e 936 (tradução de Guillon Ribeiro, FEB)
- CVV, Centro de Valorização da Vida, telefone 188
- Diário Espírita, estudos da Doutrina Espírita
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