Está tudo escrito ou somos livres? Neste estudo de O Livro dos Espíritos, questões 851 a 863, desmontamos a ideia de destino passo a passo: o que é realmente fatal, por que as precauções valem a pena, por que ninguém nasce destinado ao mal e o que fazer com a sensação de azar na vida.
Prefere ler? O estudo completo está aqui embaixo, com as questões de O Livro dos Espíritos para você conferir na obra.
Era para ser. Estava escrito. Não tinha como fugir. A gente ouve essas frases em velórios, em términos, em demissões, em acidentes. Elas consolam um pouco, é verdade. Mas também levantam uma dúvida séria. Se está tudo escrito, então para que serve a nossa escolha? E se a gente escolhe tudo, por que tanta coisa parece fora do nosso controle?
Kardec enfrentou esse dilema de frente, no capítulo sobre a lei de liberdade de O Livro dos Espíritos, a partir da questão 851. Vamos seguir o raciocínio dele por etapas. Primeiro, o que é realmente fatal. Depois, os perigos e acidentes. Em seguida, as escolhas morais. E por fim, aquela sensação de azar que acompanha algumas pessoas.
Existe destino?
A pergunta da questão 851 é exatamente a nossa. Há fatalidade nos acontecimentos da vida? Todos os acontecimentos são predeterminados? E, se forem, o que sobra do livre-arbítrio?
A resposta faz uma separação que muda tudo. A fatalidade existe só pela escolha que o Espírito fez, antes de encarnar, desta ou daquela prova. Escolhendo, ele criou para si uma espécie de destino, que é consequência da posição em que nasceu. Mas isso vale para as provas físicas. Nas provas morais e nas tentações, ele conserva o livre-arbítrio, e é sempre senhor de ceder ou de resistir. Nenhum Espírito, bom ou mau, pode dominar essa vontade.
A única coisa fatal
Segunda etapa. Se nem tudo é destino, existe alguma coisa realmente fatal? A questão 853 responde que sim, uma só. Fatal, no verdadeiro sentido da palavra, só o instante da morte o é. Quando chega esse momento, de uma forma ou de outra, não há como evitar.
Alguém poderia pensar: então não preciso tomar cuidado com nada. A questão 854 corrige na hora. As precauções não são inúteis. Elas nos são sugeridas justamente para evitar a morte que ameaça. São um dos meios usados para que ela não aconteça antes do tempo. Usar o cinto, ir ao médico, dirigir com atenção, tudo isso faz parte do plano.
“Quem teme a morte é o homem, não o Espírito.”
O Livro dos Espíritos, questão 858
E há uma frase curta nesse trecho que vale guardar. Kardec pergunta por que quem pressente a própria morte costuma temê-la menos. E a resposta da questão 858 é esta: quem teme a morte é o homem, não o Espírito. Quem a pressente pensa mais como Espírito, e entende que ela é uma libertação.
Perigos e acidentes
Terceira etapa. E aqueles sustos que não dão em nada? O carro que quase bate, a queda que poderia ter sido grave. Por que passamos por isso? É a questão 855.
A resposta é bonita. Ter a vida posta em perigo é um aviso que nós mesmos desejamos, para nos afastarmos do mal e nos tornarmos melhores. Depois do susto, a gente pensa em mudar. E por meio desses perigos, dizem os Espíritos, Deus nos lembra da nossa fraqueza e da fragilidade da existência. O quase acidente é um convite para rever a vida, não um castigo.
E os acidentes do dia a dia? A questão 859 diz que, de ordinário, são coisas muito pequenas. Às vezes os Espíritos nos ajudam a evitá-los, dirigindo o nosso pensamento, porque não gostam de nos ver sofrer. Mas isso não tem importância na vida que escolhemos. E repete: a fatalidade, verdadeiramente, só existe quanto ao momento de aparecer e desaparecer deste mundo.
E então vem um dos exemplos mais simples e mais esclarecedores de todo o livro. Imagine que você queimou o dedo no fogão. Estava escrito?
“Não creias, entretanto, que tudo o que sucede esteja escrito, como costumam dizer. […] Imagina que queimas o dedo.”
O Livro dos Espíritos, questão 859, item a
Os Espíritos respondem: não creias que tudo o que acontece esteja escrito, como se costuma dizer. Um acontecimento pode ser consequência de um ato que você praticou por livre vontade. Se não tivesse praticado, não teria acontecido. Queimar o dedo é resultado da imprudência e efeito da matéria. Só as grandes dores e os fatos capazes de influir no nosso moral, Deus os prevê, porque são úteis ao nosso aprendizado.
As escolhas morais
“Ficai, porém, sabendo que ninguém há predestinado ao crime e que todo crime, como qualquer outro ato, resulta sempre da vontade e do livre-arbítrio. […] No tocante, pois, a esses atos, nunca há fatalidade.”
O Livro dos Espíritos, questão 861
Quarta etapa, e talvez a mais importante. Na questão 861, Kardec pergunta se alguém que comete um crime já sabia, antes de nascer, que faria isso. A resposta é não. A pessoa pode ter escolhido uma vida de lutas, em que haverá ocasião de errar. Mas não sabe se vai errar, porque quem delibera sobre uma coisa é sempre livre de fazê-la ou não. Ninguém há predestinado ao crime. E, quanto aos atos da vida moral, nunca há fatalidade.
E o comentário da mesma questão resume o capítulo inteiro. Nós confundimos sempre duas coisas muito diferentes: os acontecimentos materiais da vida e os atos da vida moral. A fatalidade, quando existe, está só nos acontecimentos materiais, cuja causa está fora de nós. Os atos morais nascem sempre de nós. Neles, há sempre liberdade de escolher. A chuva não depende de mim. O que eu faço debaixo dela, sim.
E dá para mudar o rumo dos acontecimentos? A questão 860 diz que sim, quando essa mudança cabe na vida que escolhemos. E acrescenta algo bonito: fazer o bem é o objetivo único da vida, e por isso nos é permitido impedir o mal, sobretudo aquele que poderia gerar um mal maior. Quem evita uma briga, quem alerta alguém de um perigo, está mudando o rumo das coisas.
E quem parece ter azar?
Quinta etapa. E aquelas pessoas que parecem perseguidas pelo azar? Que nunca conseguem dar certo em nada, por mais que tentem? Kardec também perguntou isso, na questão 862.
A resposta é cuidadosa. Pode ser, sim, uma prova escolhida, uma vida de decepções para exercitar a paciência e a resignação. Mas não é uma fatalidade absoluta. Muitas vezes, dizem os Espíritos, é o resultado de um caminho que não combina com a inteligência e as aptidões da pessoa. E eles dão um exemplo: quem tenta atravessar um rio a nado sem saber nadar tem grandes chances de se afogar.
“Para todos haveria lugar no mundo, desde que cada um soubesse colocar-se no lugar que lhe compete.”
O Livro dos Espíritos, questão 862
E fecham com uma frase que é quase um conselho de orientação vocacional. Para todos haveria lugar no mundo, desde que cada um soubesse se colocar no lugar que lhe compete. Às vezes o que chamamos de azar é só um talento esperando ser descoberto. O comentário da questão 852 completa: é mais simples, e menos humilhante para o nosso amor-próprio, culpar a sorte do que rever as próprias escolhas.
E se a sociedade empurra a gente para um caminho que não é o nosso? A questão 863 responde com firmeza: são os homens, e não Deus, que fazem os costumes sociais. Quem se submete a eles faz isso por livre escolha, porque, se quisesse, poderia se libertar. Ninguém vai levar em conta o sacrifício feito só para agradar a opinião dos outros. Mas Deus leva em conta o sacrifício que fazemos das nossas vaidades.
Na prática
Então, o que fazer com tudo isso na vida real? Tomar as precauções, porque elas valem. Ver os sustos como convite para melhorar. Lembrar que, nas escolhas morais, você é sempre livre. Buscar o caminho que combina com quem você é. E, nas dificuldades que não dependem de você, manter a consciência tranquila. Porque, como diz a questão 852, quem tem a consciência pura em meio aos males já se sente bastante consolado.
No fim desse raciocínio, a conclusão é libertadora. Nem tudo está escrito. Algumas linhas foram traçadas antes de nascermos, é verdade. Mas o mais importante, o que fazemos com elas, está sendo escrito agora, por você.
Fontes
- O Livro dos Espíritos, Allan Kardec, Parte Terceira, cap. X, Da lei de liberdade, questões 851 a 863 (tradução de Guillon Ribeiro, FEB)
- Diário Espírita, estudos da Doutrina Espírita
Gostou do estudo? Tem um novo toda semana no canal Diário Espírita no YouTube. A narração dos vídeos usa voz sintética.
