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Uma pergunta simples na recepção do centro
Talvez você já tenha visto essa cena acontecer bem de perto. Depois de um dia puxado no trabalho e daquela viagem cansativa de ônibus, uma pessoa entra pela primeira vez em uma casa espírita no seu bairro. Ela senta quietinha no fundo da sala, toma um copo de água fluidificada e acompanha a leitura da noite.
Ao final da reunião, conversando com quem estava na recepção, ela repara na estante de livros e pergunta com sincera curiosidade: quem organiza tantas casas diferentes pelo país? Por que um centro aqui em Minas Gerais ou em Belém do Pará estuda exatamente as mesmas páginas?
Essa dúvida é muito natural. O Espiritismo não tem sacerdotes, chefes regionais ou uma hierarquia rígida que manda no que cada trabalhador deve fazer. As casas nascem livres, fundadas por amigos e famílias que buscam consolo e estudo.
Ainda assim, existe uma harmonia visível entre elas. Para entender como essa ligação foi construída entre nós, precisamos conhecer a história de Antônio Wantuil de Freitas e os passos dados em meados do século passado.
Quem foi Antônio Wantuil de Freitas
Antônio Wantuil de Freitas nasceu em 23 de outubro de 1895, na pequena cidade de Patrocínio do Muriaé, em Minas Gerais. Ele dedicou décadas da sua existência a uma tarefa discreta, paciente e profundamente administrativa dentro do Movimento Espírita.
Mais tarde, já estabelecido no Rio de Janeiro, ele assumiu a presidência da Federação Espírita Brasileira em 1943. Permaneceu nessa função até 1970, somando 27 anos contínuos à frente da instituição.
Foram quase três décadas de dedicação sem alarde. Ele desencarnou em 11 de março de 1974, na cidade do Rio de Janeiro, deixando uma folha de serviços marcante para a organização doutrinária do país.
A gente sabe que presidir uma instituição por tanto tempo exige paciência e muita capacidade de ouvir. Manter o equilíbrio em períodos de crescimento e transformações sociais pede uma serenidade que não se improvisa.
Livros, imprensa e a chegada da mensagem nos lares
Para que as pessoas pudessem estudar com segurança, era preciso facilitar o acesso aos livros. Durante a gestão de Wantuil de Freitas, em 1946, foi criado o Departamento Editorial da Federação Espírita Brasileira.
Essa estrutura permitiu que as obras básicas e os livros de estudo chegassem aos pontos mais distantes do mapa nacional. Pense na realidade daquela época, quando as estradas eram difíceis e as encomendas demoravam semanas para cruzar os estados.
Além da produção de livros, ampliaram-se as tiragens da revista Reformador. A publicação servia como uma ponte fraterna entre companheiros de cidades pequenas e capitais, levando esclarecimento e amparo a quem às vezes estudava sozinho em casa.
O objetivo nunca foi criar um monopólio de ideias. Tratava-se de garantir que o leitor comum, sem grandes recursos, encontrasse traduções cuidadas e textos acessíveis para alimentar suas reuniões em família e seus grupos de prece.
O Pacto Áureo de 1949: unificar sem impor
O marco mais lembrado desse período aconteceu em 5 de outubro de 1949, com a concepção do documento que ficou conhecido como Pacto Áureo. O texto foi pensado com a intenção clara de fortalecer o Movimento Espírita em todo o território nacional.
Naqueles anos, os grupos espíritas espalhados pelo Brasil corriam o risco de se isolarem uns dos outros. Quando cada um caminha sozinho, o desânimo pesa mais fácil e as dúvidas sobre a prática doutrinária se acumulam.
O Pacto Áureo não veio para ditar ordens ou anular a liberdade das casas. O papel dessa aproximação sempre foi incentivar o diálogo entre as federações estaduais e a instituição nacional, respeitando o ritmo e as particularidades de cada região.
Vamos pensar juntos: unificação é diferente de uniformização. Uniformizar seria exigir que todas as salas de estudo tivessem a mesma cor de parede ou o mesmo horário de abertura. Unificar é sentar à mesa com fraternidade, reconhecendo o companheiro de ideal como um irmão que estuda a mesma base.
A concordância dos ensinos segundo Allan Kardec
Essa necessidade de conversarmos entre nós tem raízes na própria metodologia de Allan Kardec. Em O Evangelho segundo o Espiritismo, na Introdução, item II, que trata da Autoridade da doutrina espírita, o codificador fala da importância do controle universal dos ensinos.
Kardec explica que a garantia do ensino dos Espíritos está na concordância que existe entre as instruções dadas simultaneamente em lugares diferentes, por médiuns estranhos uns aos outros. Se cada grupo se fechar em quatro paredes e passar a aceitar qualquer ideia particular sem confrontar com o todo, a doutrina se descaracteriza.
Por isso é tão saudável quando as casas espíritas conversam entre si e buscam a mesma fonte. Não se trata de seguir regras humanas cegas, mas de manter o estudo ancorado nos princípios seguros da codificação kardequiana.
Quando os centros mantêm essa ligação fraterna, quem ganha é o frequentador que precisa de amparo. Ele sabe que, seja numa grande capital ou num vilarejo do interior, encontrará o mesmo respeito à razão e o mesmo convite ao autoaperfeiçoamento moral.
O que essa história ensina para a nossa rotina
A organização que Wantuil de Freitas ajudou a estruturar por 27 anos não pertence apenas ao passado. Ela se reflete na tranquilidade com que você encontra hoje um livro aberto sobre a mesa de estudos da sua cidade.
Viver o ideal da união é um exercício diário, inclusive dentro do nosso próprio grupo. Às vezes surgem divergências simples sobre como conduzir uma tarefa ou organizar uma escala de limpeza, e é aí que a fraternidade precisa falar mais alto que a vontade pessoal.
Construir a concórdia dá trabalho e exige desprendimento de quem coordena e de quem colabora. Foi esse trabalho contínuo, feito página por página e reunião por reunião, que garantiu a solidez do movimento que nos acolhe nos dias difíceis.
Se você quiser dar um passo simples hoje, quando for ao seu centro espírita, converse com os trabalhadores da casa. Pergunte com carinho como a instituição do seu bairro se relaciona com a federação espírita do seu estado. Conhecer esses laços ajuda a gente a valorizar o esforço silencioso de tantos irmãos que vieram antes de nós.
Fonte: Federação Espírita Brasileira (FEB)
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