Imagem: cubajuan / Pixabay
Talvez você estivesse voltando do trabalho no ônibus lotado, ou preparando o jantar em casa, quando a notificação piscou na tela do celular. Em muitos grupos de estudo e famílias espíritas pelo Brasil afora, a mensagem causou surpresa e um aperto discreto no coração. Uma foto mostrava o busto de Allan Kardec caído no chão, em Lyon, sua cidade natal na França. Para quem já esteve lá ou guarda na estante uma foto antiga daquela praça, o impacto parece ainda mais próximo.
A reação inicial diante de uma imagem assim costuma ser de tristeza ou indignação. Mas, quando a poeira baixa e a gente respira fundo, percebe que esses momentos pedem justamente o que o mestre lionês sempre nos ensinou: equilíbrio, paciência e olhar sereno. Vamos conversar um pouco sobre o que aconteceu e sobre como podemos agir diante disso.
O que aconteceu em Lyon no fim de semana de 17 de outubro
De acordo com informações divulgadas pela Federação Espírita Brasileira (FEB), o monumento em homenagem a Hippolyte Léon Denizard Rivail foi derrubado durante manifestações públicas. O fato ocorreu no fim de semana de 17 de outubro de 2026, data apontada pela FEB, na cidade francesa de Lyon. A escultura havia sido inaugurada no ano de 2004, por iniciativa do Conselho Espírita Internacional (CEI), para comemorar o bicentenário de nascimento de Kardec.
As imagens que circularam foram registradas por Gilles Fernandez, contando a cobertura com a colaboração de Olivier Geneviève, Pierre Jay e Sonia Zaghetto. O desenho que deu origem ao monumento partiu de uma criação da própria FEB, a mesma que virou selo postal dos Correios no Brasil durante as comemorações de 2004.
A França enfrenta uma onda de manifestações com a participação de estudantes secundaristas e universitários. Os protestos decorrem da insatisfação com a precarização do ensino público, gerando barricadas em diversas localidades além de Lyon, como Paris, Marselha, Toulouse e Lille. No meio desses distúrbios de rua, o monumento acabou vindo abaixo.
O professor Rivail e o paradoxo de uma praça pública
A própria nota da FEB lembra um detalhe que mexe com os nossos sentimentos de forma muito particular. Antes de adotar o pseudônimo de Allan Kardec para organizar a Doutrina Espírita, Rivail foi um educador respeitado, discípulo direto de Pestalozzi. Como vimos no estudo sobre “O Professor Rivail Antes de Allan Kardec”, publicado em 16 de outubro de 2026, ele abria as portas da própria casa para oferecer cursos gratuitos aos que não podiam pagar.
Há um contraste evidente quando vemos a escultura de um mestre dedicado ao ensino ser atingida justamente em um protesto estudantil. Mas a história humana tem dessas contradições. Na agitação coletiva, símbolos são atingidos sem que as pessoas muitas vezes saibam quem estão derrubando.
Em vez de apontar o dedo ou alimentar rancores contra os jovens franceses que estão nas ruas, o momento pede compreensão. Julgar à distância não ajuda a pacificar os corações e vai contra a própria postura que Kardec adotou durante toda a sua existência.
A pedra tomba, mas o pensamento continua de pé
Diante do ocorrido, a diretoria da FEB emitiu uma declaração muito oportuna. A instituição afirmou que a destruição do monumento “não diminui a grandeza nem apaga a perenidade da obra do codificador”. Na mesma manifestação, a entidade convida os companheiros de ideal “à serenidade, à oração pela harmonia entre as nações”. A federação também recordou o capítulo final de A Gênese, intitulado “São chegados os tempos”, sugerindo a leitura dessas reflexões sobre os momentos de transição e renovação das ideias.
É uma lição valiosa para todos nós. Se alguém derruba uma estátua na Europa ou quebra uma placa na esquina de uma cidade do interior paulista, a mensagem não sofre dano algum. O bronze e o granito pertencem à matéria, sujeitos ao tempo e aos acidentes da vida urbana. O que Kardec deixou gravado não está na pedra de Lyon, mas nas páginas de livros que continuam amparando dores e consolando lares.
Em O Livro dos Espíritos, na questão 886, encontramos a definição de caridade ensinada por Jesus: benevolência para com todos, misericórdia para com as imperfeições alheias e perdão das ofensas. Caridade, portanto, inclui a tolerância quando algo que estimamos é atingido. Responder com agressividade nas redes sociais ou cultivar mágoa seria abandonar a caridade exatamente na hora em que ela é posta à prova.
O que você e eu podemos fazer hoje
Quando coisas ruins acontecem no mundo, costumamos nos sentir impotentes. Pensamos: “O que eu, daqui da minha casa, posso fazer por um busto caído na França?”. A verdade é que a nossa atitude mental tem força real.
Podemos colocar em prática algumas atitudes simples a partir de agora:
- Fazer uma oração silenciosa e fraterna pela paz na França, enviando bons sentimentos tanto aos manifestantes quanto aos educadores e governantes daquele país.
- Evitar compartilhar fotos com comentários coléricos em aplicativos de mensagens, substituindo a irritação pelo apelo da FEB à serenidade.
- Ler hoje à noite, em família ou sozinho antes de dormir, uma página de Allan Kardec, lembrando que a melhor homenagem que podemos prestar a ele é viver o que ele ensinou.
- Exercitar a paciência no trânsito, na fila do banco ou com alguém difícil da própria família, convertendo a tristeza da notícia em caridade prática.
Uma escultura pode tombar no asfalto em segundos. O amor, o respeito e a instrução que transformam a alma humana continuam intocáveis, esperando apenas pela nossa decisão diária de praticá-los.
Fonte: Federação Espírita Brasileira (FEB)
