Imagem: Zeynep Altuntaş / Pexels
O relógio na parede da sala marca cinco da tarde. O único barulho na casa é o motor da geladeira e o som baixo da televisão ligada, mais para fazer companhia do que por real interesse. Essa é a realidade de muita gente que a gente conhece.
Pense na dona Neuza, que mora em um bairro do subúrbio carioca e viu a casa esvaziar depois do falecimento do marido. Ou no Lucas, jovem de vinte e poucos anos em São Paulo, que trabalha o dia inteiro no quarto alugado em regime remoto, trocando apenas mensagens digitais com os colegas de equipe. São dias inteiros sem escutar a própria voz direcionada a outro ser humano.
A solidão silenciosa vai se instalando devagar. Diante dessa dor tão comum aos nossos dias, vale a pena abrir as páginas de O Livro dos Espíritos e entender o que os benfeitores espirituais ensinaram a Allan Kardec sobre a convivência humana.
A palavra não nos foi dada por acaso
Na terceira parte da obra básica, no capítulo dedicado à Lei de sociedade, Kardec inicia o tema com uma pergunta muito direta. Na questão 766, ele indaga se a vida social está na própria Natureza. A resposta dos Espíritos é clara e sem rodeios: sim, Deus fez o ser humano para viver em sociedade.
Eles completam o raciocínio lembrando um detalhe biológico e espiritual muito simples: Deus não deu a palavra e outras faculdades de comunicação à toa. A fala existe para que possamos trocar impressões, pedir ajuda, consolar e partilhar a vida. Quando nos calamos por tempo demais, algo em nós parece perder o ritmo natural.
Viver junto não é um mero capricho cultural da humanidade. É uma necessidade estrutural da criação. Ninguém basta a si mesmo em nenhuma fase da existência material ou moral.
O isolamento absoluto e a necessidade do contato
Logo em seguida, na questão 767, Kardec questiona se o isolamento absoluto seria contrário à lei natural. Os benfeitores afirmam categoricamente que sim, pois todos os homens devem concorrer para o progresso coletivo ajudando-se mutuamente. O isolamento completo quebra essa corrente invisível de solidariedade.
Aprofundando o assunto na questão 768, o codificador pergunta se o homem poderia progredir vivendo inteiramente isolado. A resposta corta qualquer ilusão de autossuficiência: não, porque lhe falta o contato com outros homens. Sozinho, o ser humano não desenvolve as faculdades que Deus lhe concedeu.
Vamos pensar na prática: como aprenderíamos a ter paciência se ninguém nos contrariasse? Como exercitaríamos a caridade sem alguém precisando do nosso amparo? O atrito da convivência diária funciona como o polimento da pedra bruta. É na fila do banco, na reunião de condomínio e na mesa de jantar da família que nossa alma é testada e burilada.
O recolhimento saudável e a fuga egoísta
Aqui, no entanto, a gente precisa ter muito cuidado para não cometer injustiças. Existe uma diferença imensa entre o silêncio regenerador e a fuga do mundo. Kardec teve essa sensibilidade e levou essa dúvida aos Espíritos nas questões 770 e 771.
Os benfeitores explicaram que existem situações em que a pessoa se retira temporariamente para trabalhar com mais afinco em benefício dos outros, ou para socorrer os necessitados em locais distantes. Nesses casos, o afastamento não é fuga, mas dedicação fraterna. Por outro lado, quem se isola simplesmente para não ser incomodado, fugindo dos deveres da vida comum, comete um ato de egoísmo.
Também na questão 772, eles lembram que o silêncio tem valor quando usado para o recolhimento, para a meditação e para a prece. Momentos a sós com a própria consciência são remédios para a alma cansada. A solidão escolhida por algumas horas para ler um bom livro ou orar é benéfica. O perigo mora quando o retiro deixa de ser uma pausa reparadora e se transforma em um muro intransponível erguido contra o próximo.
Quando o silêncio adoece: responsabilidade e acolhimento
Nem sempre quem está só escolheu essa condição. Muitas vezes a pessoa foi deixada de lado pelas circunstâncias da velhice, pelo luto ou pela quebra de laços afetivos. A doutrina espírita jamais culpa quem sofre com o abandono.
Na questão 685-a de O Livro dos Espíritos, ao tratar dos idosos que não têm mais forças para trabalhar nem família que os ampare, os benfeitores ensinam que a sociedade deve fazer as vezes da família. Isso significa que nós, vizinhos, amigos e membros da comunidade, temos um compromisso moral direto com quem está desassistido ao nosso lado.
Também precisamos olhar com muita lucidez para a saúde mental. Quando a tristeza se prolonga, o desânimo tira a vontade de sair da cama e o quarto fechado vira o único refúgio, esses sinais podem indicar depressão. Nessas horas, o amparo médico e psicológico é indispensável. O passe, a água fluidificada e as preces somam forças ao tratamento clínico, mas não substituem os cuidados da medicina da Terra.
Pequenos passos para mudar o dia
A transformação da nossa convivência não exige atos grandiosos. Ela começa com atitudes singelas que podemos realizar hoje mesmo, rompendo a barreira do distanciamento.
- Se você percebe que anda isolado demais, procure dar um primeiro passo pequeno. Vá até a padaria do bairro a pé e cumprimente quem estiver atendendo.
- Considere visitar um centro espírita para assistir a uma palestra presencial ou participar de um grupo de estudos. Estar entre pessoas que buscam o bem renova as energias.
- Se a sua saúde permitir, procure um trabalho voluntário. Ajudar quem tem menos do que a gente é o caminho mais rápido para esquecer as próprias dores.
- Se você conhece alguém que vive sozinho, mande uma mensagem curta ou dê um telefonema de cinco minutos. Uma pergunta sincera como “como você passou o dia?” pode salvar a tarde de alguém.
- Se tiver um vizinho idoso, ofereça um café coado na hora ou pergunte se ele precisa de algo da farmácia.
Ninguém progride sozinho porque fomos criados para o amor mútuo. Que neste dia, possamos nos abrir para o encontro, desfazendo distâncias com um gesto simples de atenção e afeto.
Leia também
- Lei do Trabalho: cansaço, limites e o sentido do descanso
- Perdoar não é esquecer: o que o Espiritismo ensina
- A força da gratidão e a mudança de sintonia
Imagem: Zeynep Altuntaş / Pexels
